Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo

Foto: Felipe Rau/Estadão

Entrevista comRoger MachadoTécnico de futebol

Roger Machado viajaria de São Paulo para Londres, onde a filha mais velha iniciará estudos em música. Orgulhoso, o pai mostrou à reportagem do Estadão um vídeo em que ela canta junto a uma orquestra. Os dois haviam aproveitado a passagem pela capital paulista para ir ao show da islandesa Laufey, que mistura jazz e bossa nova com o pop moderno.

Foi um itinerário bem mais leve do que a última estadia de Roger na cidade. De março a maio, o técnico comandou o São Paulo, encarando rejeição antes mesmo do anúncio inicial, já que a torcida era contrária até mesmo à demissão de Hernán Crespo.

Hoje, o gaúcho de 51 anos trata o caso como aprendizado, lamenta que tenha sido alvo de chacota pela forma técnica que se expressa, mas compreende melhor a posição do treinador em relação ao torcedor. Entretanto, Roger ressalta uma relação tóxica com o futebol, amplificada pelas redes sociais.

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“Para mim, o futebol amplifica e cristaliza o que nós somos como sociedade, com as coisas boas e com as coisas ruins. Essa relação que a gente hoje está vivendo adoece a todos nós, inclusive o torcedor”, disse ao Estadão.

Roger Machado concedeu entrevista ao 'Estadão'. Foto: Felipe Rau/Estadão

Não estritamente ao que viveu no São Paulo, Roger acredita que suas posições explícitas na política e na luta antirracista são causas de parte da rejeição que encara como treinador. “Quando eu acesso esse lugar (o futebol profissional), talvez o que as pessoas gostariam é que o discurso que eu abraçasse fosse o da meritocracia. Afinal de contas, eu consegui vencer a disputa com outros milhares de jovens”, ponderou.

“Mas eu também entendo que esse lugar, ao mesmo tempo que é de inclusão e oportunidade, é um lugar de exclusão”, completou.

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Leia abaixo a entrevista com o técnico Roger Machado e veja, na íntegra, no vídeo no topo da página

O que ficou ficou da passagem pelo São Paulo?

Eu sempre vou buscar entender a principal pergunta com que eu me deparo nesses momentos de adversidade. “O que eu preciso aprender com isso?” E buscar ressignificar esses momentos, para ter um aprendizado como pessoa, como profissional.

Os dois meses em São Paulo foram um início de trabalho. Genuinamente, eu confiava que pudesse superar a rejeição inicial, com o torcedor conhecendo o profissional e a intenção de buscar ajudar e solucionar os problemas.

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Quando citam o São Paulo, a palavra que me vem à mente é “desafio”. O futebol sempre cobrou de nós, profissionais. No meu tempo como jogador, a gente tinha um contato direto com o torcedor quando saía do estádio. A gente dava quase uma entrevista coletiva todo dia quando chegava no clube. E hoje a gente vive um novo momento, em número, em visibilidade, em extensão, em proporção, que a gente precisa aprender a lidar.

Roger Machado comandou o São Paulo por 16 jogos entre março e maio. Foto: Rubens Chiri/São Paulo

O anúncio, na época, já falava em tentar conquistar o torcedor, tendo de pedir uma chance. Não lembro outra situação como essa no Brasil.

Começa pelo que tu disseste. Vai seguir pelo momento que a gente vive no futebol brasileiro, da busca por soluções em profissionais de outros lugares. O treinador brasileiro já ocupando um outro lugar no imaginário do desejo do torcedor brasileiro.
Então, essa expectativa de quem seria o substituto daquele profissional que o torcedor gostava (Hernán Crespo), o início de campeonato, que performou bem e deu uma expectativa diferente para o torcedor; talvez a trajetória do Roger como profissional, a busca de grandes conquistas pela história do clube, imagina-se buscar um profissional que já tenha outros feitos. O momento político do clube…
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A política do clube, em especial, atrapalhou?
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Ela vai somando-se a outros critérios. Mas, sem dúvida nenhuma, o desafio de aceitar a oportunidade de trabalhar num clube gigante e a confiança de poder ressignificar toda essa rejeição com o trabalho e ganhar o carinho do torcedor… (A resposta foi) totalmente desproporcional do que a gente vinha se deparando.
Eu nunca havia vivido isso. Você chega em lugares com mais ou menos rejeição. A minha ida para o Internacional, com uma história contada e ídolo no Grêmio, também gerou rejeição das duas partes. Mas, com essa dimensão, eu nunca tinha vivido. Foi, de uma certa forma, surpreendente.
Com um certo distanciamento, já trabalhou mais essa experiência consigo mesmo?
O que eu concluí desse momento foi aprender a ser resiliente. O adversário te vaiando no jogo é uma questão que até te dá ânimo. Agora, o teu torcedor agindo dessa forma torna o ambiente mais instável. Então, a capacidade de ser resiliente, de seguir as convicções. Isso foi um grande aprendizado.
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Do ponto de vista negativo, entender a comunicação. Em alguns momentos, a minha comunicação foi interpretada de forma diferente pela forma, por vezes mais técnica, que eu uso. E isso me fez refletir que, muitas vezes, na dor da derrota, o torcedor deseja que o profissional se conecte com o seu sentimento, mais do que qualquer explicação teórica, técnica, estratégia, tática. Isso foi um grande aprendizado, e eu busco evoluir nesse sentido.
Na época da entrevista, após a derrota para o Palmeiras, não era difícil entender a explicação. Talvez apenas não era o que o torcedor queria ouvir.
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Cada vez mais, o dirigente fala menos com o torcedor. Então, atualmente o treinador ficou como o porta-voz do clube. Cada vez menos também existe o controle dessas exposições. Eu faço essa reflexão, mas também entendo que (devo) explicar tecnicamente o que acontece no jogo, em respeito ao profissional (jornalista) que está na minha frente. E que, na minha opinião, tem o mesmo nível de conhecimento que eu de futebol. Ele é o meio do caminho para, de uma certa forma, traduzir essa explicação para o torcedor.
É algo que norteia algumas resistências ao meu trabalho, como se o entorno ou mesmo os atletas tivessem algum nível de dificuldade de compreender o que é passado pelo treinador. O que é um equívoco se pensar. O jogador é muito rápido de raciocínio.
Eu também esperava que os profissionais (jornalistas) fizessem… se é que pode ser chamado de tradução. E não usassem como chacota, como, em alguns momentos, foi feito, numa tentativa de desqualificar o meu conhecimento.
O ambiente do futebol, torcedor e imprensa têm resistência em estudar e aprender?
O torcedor brasileiro tem a sua camisa como uma segunda pele. A relação que ele tem com o seu clube é muito para além do jogo, para além da estratégia, da estrutura tática. Isso faz com que ele reaja e sinta necessidade de outras demandas. Cabe ao profissional do lado de cá buscar essa adaptação.
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Mas essa globalização e a vinda de outros profissionais, de outras culturas, o acesso a outras ligas, em que a cultura do local está associada muito mais a gostar e admirar o jogo como uma estratégia… Isso traz esses elementos (de estudo). A gente vê no universo da internet muitos profissionais trabalhando e buscando explicar o jogo taticamente, sem perder de vista a questão da paixão.
Voltando um pouco ao São Paulo. O Crespo falava sobre brigar pelos 45 pontos. Na sua opinião, era isso mesmo?
A exceção de duas, três equipes que conseguem, pelo seu nível de organização, disputar toda a temporada, outras se consolidam como uma segunda força, e acho que isso também cativa o torcedor.
Quando eu cheguei ao São Paulo, a ideia era de que a gente seguisse trabalhando com os jovens, utilizá-los em alguns momentos ou na Sul-Americana, em alguns jogos do Campeonato Brasileiro para fortalecer aquele grupo e seguir buscando por conquistas maiores.
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Diferente dos anos 1990, em que tu podias montar um time vitorioso para ganhar uma temporada, o futebol moderno diz que tu precisas construir esse time vitorioso. Então a expectativa era a construção desse time, a possibilidade de conquistar título na temporada, porque estávamos na Copa do Brasil, na Sul-Americana. O Campeonato Brasileiro, a gente sabe que é o mais difícil, de longa duração, precisa estar em estágios mais consolidados. Mas a ideia era que, com o trabalho evoluindo da forma como a gente acreditava e tinha capacidade de fazer, o clube pudesse conquistar algo.
Sua posição política e na luta antirracista cria resistência contra você no futebol?
Eu penso que sim. Vai se somar a outras camadas e atravessar todas ao mesmo tempo. Quando eu acesso esse lugar (o futebol profissional), talvez o que as pessoas gostariam é que o discurso que eu abraçasse fosse o da meritocracia. Afinal de contas, eu consegui vencer a disputa com outros milhares de jovens que buscavam o protagonismo no campo, através das minhas capacidades, do meu esforço, do meu talento, o que é uma verdade.
Mas eu também entendo que esse lugar, ao mesmo tempo que é de inclusão e oportunidade, é um lugar de exclusão também. Esse lugar em que eu me tornei profissional talvez tenha sido uma das únicas portas que nos deram acesso, porque todas as outras estavam fechadas. E, mesmo assim, quando a gente fala em vencer nesse lugar: 3% dos jogadores (em referência ao percentual dos que recebem salários acima de dezenas de milhares).
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O racismo não acabou, porque ele é uma estrutura. Ele está estruturado na sociedade, e a gente, para resolver esse problema, precisa fazer as ações afirmativas que nós estamos fazendo. Elas não são ad aeternum, elas são para corrigir uma desigualdade criada durante um período muito difícil.
Roger vê futebol como ambiente de exclusão e descarta meritocracia. Foto: Felipe Rau/Estadão
O futebol está doente, como disse o Abel Ferreira?
Para mim, o futebol amplifica e cristaliza o que nós somos como sociedade, com as coisas boas e com as coisas ruins. A fala do Abel é verdadeira. Imagino, motivada pelo seu sentimento. Na verdade, essa relação que a gente hoje está vivendo adoece a todos nós, inclusive o torcedor.
A gente, dessa ponta aqui, fala das nossas dificuldades, em função de viver num espaço que recebe todas as expressões de todos os lados. E cuidar bem dessa saúde mental é algo cada vez mais necessário para que a gente consiga lidar bem com todas as pressões. Se remunera mais, se tem mais visibilidade, as responsabilidades são maiores.
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Entender onde a gente está pisando, mas também buscar um pouco de compreensão dos outros agentes que estão em torno dessa estrutura, vai nos ajudar a construir um futebol melhor. E daí sim, talvez o reflexo a partir do futebol possa migrar e gerar um pouco de movimento social para que a gente busque solucionar os nossos problemas, como país, como sociedade.
Como o Roger, de fala tranquila e lúcida, vira a chave para dizer, no vestiário, que é preciso ‘ir com a faca nos dentes para cima do adversário’?
(Risos) As minhas filhas, quando eram pequenas, quando viam o pai um pouco mais bravo, diziam: “Lá veio o pai com a voz de trovão”. Eu sou um cara calmo. Alguns dizem que eu sou controlado.
Cada um de nós tem uma personalidade. Mas nós somos diferentes papéis em diferentes situações. Eu exerço um papel como pai, como filho, como irmão, como treinador, como amigo. Em cada lugar, eu busco adaptar o que eu preciso para aquele momento. E, às vezes, ali no vestiário, as pessoas acham que aquilo é o todo, o mais importante.
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Mas aquilo é a faísca para conectar tudo que veio antes. O último grito, o último detalhe ali no vestiário. Mas não vai ser sempre assim, porque, em alguns determinados momentos, quando eu percebo que o ambiente está muito inflamado, eu vou agir de forma diferente.
Quando jogador, um dos meus colegas disse que eu era o melhor líder calado que ele já tinha visto. “Roger, cara, está ali a tua presença, né? Tuas ações. Por vezes tu não falas muito, mas, quando tu falas, é uma coisa assertiva”.
Pretende trabalhar fora do Brasil?
O mercado brasileiro sempre foi muito confortável para nós, treinadores, e o movimento de vinda de estrangeiros nos obrigou a buscar novos horizontes. A gente já foi, por muito tempo, estrangeiro. O movimento que o Mano (Menezes, no Peru) está fazendo, o Autuori já fez. O André Jardine no México. O Filipe Luís, agora, para a França.
Eu vejo com bons olhos a vinda do estrangeiro, desde que tenha uma reciprocidade nas idas e vindas. Porque a gente sabe que a possibilidade que eu tenho de ir para lá é diferente de vir para cá, em relação às licenças.
Esse movimento fez com que a gente tivesse de procurar outros mercados. Isso está levando de novo o nome do treinador brasileiro para outros países, outros mercados. Eu torço muito para o Filipe Luís ser capitão desse novo movimento. Se ele vai bem lá, abre as portas novamente.
Os estrangeiros trazem algumas questões interessantes. Às vezes eles contribuem agindo, fazendo mudanças, com novas metodologias, quebrando algumas conservas culturais que nós temos e que às vezes o treinador local tem mais dificuldade de fazer.
Está havendo uma transferência dessa necessidade de tempo de adaptação do estrangeiro para o treinador brasileiro. Com quatro jogos de instabilidade, o treinador brasileiro era derrota, era demissão na certa. Hoje a gente está vendo ciclos de sete, oito jogos sem vencer, sabendo que dificilmente depois do sétimo jogo tu não vais voltar ao caminho das vitórias.
Eu não sou contra treinador estrangeiro, de forma alguma, por todos esses motivos, por essa troca, mas a gente precisa também preservar parte do mercado, para os treinadores brasileiros se desenvolverem.
Pretende voltar a treinar ainda neste ano?
Eu estou aberto ao mercado, buscando oportunidades. Algumas sondagens já aconteceram, de dentro e de fora do Brasil. Eu busco esse movimento externo, porque é algo que me atrai muito. Como jogador, eu morei em um país só. Morei no Japão quando saí do Brasil. Viver fora te enriquece muito, te depara com outras culturas futebolísticas também.
Lá fora, como o calendário é diferente, tem um pouco mais de estabilidade nesse momento, como a temporada começou agora. América Central, México e América do Sul têm um movimento muito parecido com o brasileiro. A gente fica monitorando o mercado. Quero voltar a trabalhar este ano, até porque eu trabalhei dois meses.
Grêmio e Internacional vivem momentos conturbados. Acha que tem uma explicação regional para isso?
Eu não vejo que esse é um fenômeno local, nem factual. É um fenômeno do futebol mundial e atinge o futebol brasileiro. Impacto de uma crescente valorização desse esporte, desse business. Financeiramente, se tornou cada vez mais difícil fazer futebol. E as demandas por conseguir, além de organizar seus déficits, conseguir novas receitas se tornaram cada vez mais difíceis. É um processo que todos os clubes que não decidirem virar SAF vão ter de buscar em nível de organização diferente para continuar competindo.
Junto disso, estar deslocado do eixo central do País, onde o público é maior, tem uma capacidade de mobilizar e gerar receitas diferentes para que tu consigas honrar com os compromissos e atender à expectativa do torcedor.
Para mim, não é a única exclusivamente Internacional e Grêmio. É um novo momento do futebol e que, por essa globalização, está fazendo com que a gente tenha de se adaptar muito mais rápido que a velocidade que talvez a gente consiga. Isso, para mim, está gerando um problema."
Qual sonho ainda tem na carreira como treinador?
Treinar a seleção brasileira. Como treinador, eu preciso colocar esse objetivo lá na frente. No meio do caminho, tem todos os outros, e esse é o “gran finale”.
Eu digo que eu não estive na seleção. Eu visitei a seleção como jogador. Eu fui a alguns jogos, amistosos, jogos de Eliminatória, uma Copa América na Colômbia. Mas vestir a camisa da seleção é o sonho profissional.
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