Charinus eleonorae é uma espécie de amblípigo da família dos carinídeos (Charinidae) e do gênero Charinus. É endêmica do Brasil e restrita a cavernas do município de Itacarambi, no norte de Minas Gerais. Foi descrita em 2003 por Rafael Lourenço Cunha Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi com base em exemplares coletados na Gruta Olhos d’Água, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. O epíteto específico homenageia a biospeleóloga Eleonora Trajano, responsável pela primeira coleta conhecida da espécie. Atualmente, C. eleonorae é incluída no grupo de espécies de Charinus brasilianus, que reúne representantes distribuídos principalmente pelo leste da América do Sul. É considerada uma espécie troglóbia, apresentando diversas adaptações associadas à vida subterrânea. A espécie mede cerca de oito milímetros de comprimento e distingue-se por características troglomórficas, como a redução dos olhos medianos e laterais, além da despigmentação parcial do corpo. Também apresenta um número incomumente elevado de cerdas na margem anterior da carapaça e pedipalpos relativamente alongados. Sua distribuição conhecida restringe-se às cavernas Gruta Olhos d’Água, Lapa do Cipó e Lapa d’Água João Ferreira, inseridas na região cárstica da Província Espeleológica do Bambuí. Os indivíduos habitam exclusivamente a zona afótica das cavernas, onde utilizam fendas e pequenas cavidades das paredes rochosas como refúgio. Predador de hábitos predominantemente noturnos, C. eleonorae integra uma comunidade subterrânea especializada que inclui outros artrópodes troglóbios e espécies endêmicas da região. Estudos populacionais indicaram uma população reduzida e de baixa mobilidade, estimada em cerca de 148 indivíduos em um trecho da Gruta Olhos d’Água. Em avaliação nacional realizada em 2018, a espécie foi classificada como Em Perigo (EN) devido à sua distribuição extremamente restrita e às ameaças associadas à alteração do regime hídrico subterrâneo, incluindo captação de água, construção de barramentos, redução do aporte de matéria orgânica e mudanças no padrão regional de precipitação. A espécie ocorre em áreas protegidas e está contemplada por ações oficiais de conservação da fauna cavernícola brasileira.
Taxonomia Charinus eleonorae é uma espécie de amblípigo da família dos carinídeos, pertencente ao gênero Charinus. Foi descrita em 2003 por Rafael Lourenço Cunha Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi, com base em exemplares coletados na Gruta Olhos d’Água, no município de Itacarambi, no noroeste de Minas Gerais. Na época da descrição, o gênero Charinus, em sentido amplo, incluía 23 espécies neotropicais descritas, das quais sete eram conhecidas do Brasil. C. eleonorae foi apresentada como a oitava espécie brasileira do gênero e a segunda espécie troglomórfica conhecida no país, após C. troglobius, descrita de cavernas da Serra do Ramalho, no sudoeste da Bahia. O epíteto específico eleonorae homenageia a biospeleóloga brasileira Eleonora Trajano, que foi a primeira pessoa a coletar exemplares da espécie. Segundo os autores, C. eleonorae pertence a Charinus em sentido estrito por apresentar a basitíbia da perna IV dividida em quatro pseudoartículos, além do corpo relativamente grande e da presença de vestígios dos olhos medianos. O holótipo é um macho coletado em 26 de junho de 2001 na Gruta Olhos d’Água, em Itacarambi, Minas Gerais, por Rafael Lourenço Cunha Baptista e Alessandro Ponce de Leão Giupponi, e depositado no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sob o número MNRJ 9070. A série de parátipos inclui sete machos, seis fêmeas, dois machos imaturos, duas fêmeas imaturas e dois jovens coletados na mesma localidade e data, depositados sob o número MNRJ 9033, além de um macho depositado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo e um macho nas Coleções Zoológicas do Instituto de Ecologia e Sistemática, em Havana, em Cuba. Também foram incluídos como parátipos uma fêmea coletada por Eleonora Trajano em 10 de julho de 1993, sob o número MNRJ 9024, e uma fêmea e um jovem coletados por Pedro Gnaspini e Eleonora Trajano entre 30 de março e 2 de abril de 1994, sob o número MNRJ 9023. Posteriormente, C. eleonorae foi incluída por Miranda et al. (2016) no grupo de espécies de Charinus brasilianus, conforme a classificação proposta por Weygoldt (2005). Esse grupo reúne espécies distribuídas principalmente pelo leste da América do Sul, além de uma espécie registrada em Omã, incluindo C. asturius, C. acaraje, C. brasilianus, C. bromeliaea, C. caatingae, C. eleonorae, C. iuiu, C. jibaossu, C. montanus, C. mysticus, C. potiguar, C. taboa, C. troglobius e C. dhofarensis. Os autores destacaram que C. eleonorae pode ser distinguida de Charinus ruschii pela redução dos olhos medianos e do tubérculo ocular, estruturas que são bem desenvolvidas em C. ruschii. Também observaram que C. eleonorae apresenta um número excepcionalmente elevado de cerdas na margem frontal da carapaça, com dez cerdas, enquanto as demais espécies conhecidas do grupo apresentam no máximo seis. Em revisão taxonômica posterior, Miranda et al. (2021) ampliaram a diagnose da espécie e destacaram uma combinação de caracteres que inclui o tubérculo ocular mediano indistinto, olhos laterais reduzidos com lentes achatadas, dez cerdas na margem anterior da carapaça, tíbia da perna I dividida em 23 artículos, tarso I com 40 ou 41 artículos e basitíbia da perna IV dividida em quatro pseudoartículos. Os autores também registraram gonópodos femininos pequenos, de aspecto ventosiforme, e uma garra queliceral portando entre nove e doze dentes, características que auxiliam na distinção da espécie em relação a outros representantes do gênero.
Diagnóstico Charinus eleonorae distingue-se das demais espécies brasileiras do gênero por uma combinação de caracteres morfológicos associados ao troglomorfismo e à morfologia dos pedipalpos e das pernas. O corpo mede cerca de 7,8 milímetros em machos e fêmeas, com variação de 7,0 a 9,1 milímetros nos machos e de 7,3 a 8,3 milímetros nas fêmeas. A carapaça é pouco mais curta que quatro quintos de sua largura, proporção compartilhada apenas parcialmente com C. mysticus, enquanto a maioria das demais espécies apresenta carapaça proporcionalmente mais larga. Os cantos da margem anterior da carapaça são fracamente desenvolvidos, formando pequena saliência arredondada. O tubérculo dos olhos medianos é indistinto, geralmente com apenas duas manchas oculares muito pequenas, embora alguns exemplares não apresentem vestígios desses olhos. Os olhos laterais estão presentes, mas são reduzidos e apresentam lentes achatadas. As placas esternais são estreitas, convexas e arredondadas, com o tritosterno pouco mais de três vezes mais longo que largo. Os espinhos dos pedipalpos são muito mais longos que os das demais espécies conhecidas, exceto C. troglobius. O fêmur do pedipalpo possui três espinhos dorsais e três espinhos ventrais principais, além de um espinho ventral adicional; o distitarso possui dois espinhos longos de tamanho aproximadamente igual. O canto ventral prolateral das pernas locomotoras é espiniforme. A basitíbia e a distitíbia da perna IV apresentam, em conjunto, 18 tricobótrios, sendo um na basitíbia e 17 na distitíbia. O basitarso IV é pouco mais de duas vezes mais longo que o distitarso IV.
Morfologia A carapaça de C. eleonorae é achatada e mais larga que longa, com razão entre comprimento e largura um pouco inferior a 4/5. A margem anterior possui geralmente dez pequenas cerdas rígidas projetadas, embora alguns exemplares apresentem nove ou oito. Há uma depressão mediana anterior, no centro da qual se localizam os vestígios dos olhos medianos, e um sulco mediano fino que se estende dessa depressão até um pequeno sulco transversal, às vezes ausente, situado aproximadamente no nível do primeiro par de depressões laterais. A carapaça possui ainda uma elevação frontal baixa em cada lado, iniciada à frente dos olhos laterais e estendida quase até o primeiro par de depressões. Os cantos da margem anterior são fracamente desenvolvidos em pequena saliência arredondada. A carena inicia-se nesses cantos, alarga-se posteriormente a partir da coxa II, atinge sua maior largura sobre as coxas III e IV e alcança a margem posterior. A superfície apresenta pequenas pontuações, mais abundantes na região frontal, dispostas em linhas e manchas irradiadas a partir da fóvea e intercaladas por áreas glabras. A carapaça apresenta três pares de sulcos profundos e uma fóvea pentagonal muito profunda, cujos ângulos formam os pontos de origem do segundo e terceiro pares de sulcos e de um sulco posterior mediano baixo. O primeiro par de sulcos situa-se logo atrás das elevações frontais e não alcança a linha mediana. Há quatro pares laterais de depressões, dos quais apenas o terceiro não se localiza sobre os sulcos. O tubérculo ocular mediano é indistinto e geralmente possui apenas duas manchas oculares muito pequenas, achatadas e arredondadas, com grau variável de redução. Alguns exemplares apresentam apenas uma mancha ocular não pareada em um dos lados, uma única mancha maior e fundida no centro, ou nenhum vestígio dos olhos medianos. Os olhos laterais estão presentes, porém reduzidos, com lentes achatadas. O olho mais interno das tríades laterais é reduzido a uma pequena mancha pigmentada, enquanto os outros dois variam de lentes bem definidas, com escudos pigmentares distintos, a lentes muito pequenas e achatadas, sem delimitação clara entre as áreas pigmentadas. O processo frontal é bem desenvolvido, muito mais longo que largo e possui ápice pontiagudo. O esterno é formado por três peças, todas esclerotizadas e convexas. O tritosterno possui base arredondada e projeta-se anteriormente entre as coxas dos pedipalpos como um tubérculo alongado e bifurcado, pouco mais de três vezes mais longo que largo, com duas cerdas apicais, uma em cada ramo da bifurcação, duas cerdas medianas e duas basais. A peça mediana é arredondada e convexa, com duas cerdas nos cantos da porção mediana superior e algumas setículas dispersas. A terceira peça também é arredondada e convexa, mas menor, mais baixa e com cerdas menores que as da peça mediana. Os esternitos são separados entre si por pouco mais que o diâmetro da peça mediana. O abdome é oblongo, com pontuação quase indistinguível e mais fina que a da carapaça. As quelíceras apresentam sulco queliceral com quatro dentes internos; o dente distal é bífido, com a primeira cúspide maior que a segunda. O quarto dente é cerca de um terço mais longo que o primeiro, e a sequência de comprimento dos dentes é IV > Ia > Ib = II > III. A garra queliceral possui de dez a onze dentículos, sendo os três basais maiores. Nos pedipalpos, o trocânter possui uma grande apófise ventral distal espiniforme, com muitas cerdas fortes e ápice rombo voltado para frente, além de dois espinhos subiguais na face prolateral, um no terço mediano e outro na extremidade distal. O fêmur possui três espinhos dorsais de tamanho médio situados nos terços mediano e distal, às vezes com um espinho adicional diminuto próximo ao ápice distal, e dois tubérculos setíferos no terço basal. Ventralmente, apresenta três espinhos primários alongados, mais longos que os dorsais e decrescentes em tamanho em direção distal, além de um espinho adicional próximo ao canto basal. A tíbia possui quatro espinhos dorsais, com fórmula de tamanho III > II > I > IV, situados na metade distal, e três espinhos ventrais, sendo o mediano muito maior que os demais. O basitarso possui dois espinhos dorsais originados de uma mesma área saliente no fim da metade basal e um espinho ventral na metade distal. O distitarso possui dois pequenos espinhos na metade basal, sendo o segundo ligeiramente maior, e o órgão de limpeza ocupa cerca de metade do comprimento do artículo. A garra é longa, com ápice agudo e curvado. As pernas são densamente setosas. O canto ventral da face prolateral dos fêmures II a IV projeta-se em processo espiniforme distinto. A sequência de comprimento dos fêmures é I > III > IV > II. A tíbia da perna I possui 23 artículos, podendo chegar a 26 em pernas regeneradas. O tarso da perna I, formado por basitarso e distitarso, possui de 40 a 41 artículos, podendo chegar a 46 em pernas regeneradas. Na perna IV, a basitíbia possui quatro pseudoartículos e um tricobótrio no último pseudoartículo. A distitíbia possui um tricobótrio basal, dois medianos e 15 distais. A sequência de comprimento entre distitíbia e subdivisões da basitíbia é DT > BT1 > BT3 > BT4 > BT2. O basitarso é proporcionalmente duas vezes mais longo que o distitarso, e o distitarso é tetrâmero. As medidas dos machos, com base em cinco exemplares, indicam cefalotórax com comprimento médio de 3,5 milímetros, variando de 3,1 a 4,0 milímetros, e largura média de 4,3 milímetros, variando de 3,9 a 5,1 milímetros. O abdome mede em média cinco milímetros, variando de 4,2 a 5,6 milímetros. Nos pedipalpos dos machos, o fêmur mede em média 4,2 milímetros, a tíbia quatro milímetros, o basitarso 1,8 milímetro, o distitarso 1,2 milímetro e a garra tarsal 0,9 milímetro. Nas fêmeas, também com base em cinco exemplares, o cefalotórax mede em média 3,4 milímetros de comprimento e 4,5 milímetros de largura, enquanto o abdome mede em média 5,5 milímetros. Nos pedipalpos das fêmeas, o fêmur mede em média 3,2 milímetros, a tíbia 3,1 milímetros, o basitarso 1,8 milímetro, o distitarso 1,3 milímetro e a garra tarsal 0,9 milímetro. As fêmeas e os machos menores, provavelmente mais jovens, possuem cefalotórax de tamanho semelhante, mas os machos podem alcançar maior tamanho e apresentar apêndices mais longos. O abdome das fêmeas costuma ser maior quando está distendido por ovos. Em álcool, a carapaça e os pedipalpos são castanho-amarelados, as quelíceras variam de castanho-avermelhadas a castanho-amareladas, as pernas são amarelo-claras e o abdome é amarelo-pálido. Os autores observaram que os animais vivos apresentam padrão de coloração semelhante ao dos exemplares preservados. Os gonópodos masculinos são um pouco mais largos que longos e moles, com áreas esclerotizadas restritas à margem lateroposterior dos lobos dorsais e ao esclerito basal dos lobos laterais. Os lobos medianos são longos, finos e lamelares, com ápice largo e arredondado, sem alcançar a extremidade dos lobos laterais. Os lobos laterodorsais possuem ápice triangular e são ligeiramente menores que a extremidade dos lobos laterais. Os lobos lateroventrais são lamelares, muito finos, alongados e curvados. Os lobos laterais possuem duas projeções, das quais a segunda é mais longa e mais pontiaguda que a basal. Os gonópodos femininos são muito pequenos, pouco mais longos que largos, em forma de barril, com abertura arredondada, situados a menos de metade de seu comprimento da margem do opérculo genital e separados entre si por aproximadamente seu próprio comprimento.
Distribuição e hábitat Charinus eleonorae é endêmica do Brasil e conhecida de três cavernas situadas no município de Itacarambi, no norte de Minas Gerais: a Gruta Olhos d’Água, a Lapa do Cipó e a Lapa d’Água João Ferreira, todas inseridas na região do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. A espécie apresenta distribuição extremamente restrita, com extensão de ocorrência estimada em cerca de 30 quilômetros quadrados, e levantamentos realizados em outras cavernas da unidade de conservação não registraram sua presença. A espécie foi originalmente descrita da Gruta Olhos d’Água, tendo sua distribuição posteriormente ampliada para as demais cavidades conhecidas. A localidade-tipo situa-se em uma região de transição entre os domínios do Cerrado e da Caatinga, próxima ao rio São Francisco, e integra a Província Espeleológica do Bambuí, a maior área cárstica do Brasil, que se estende por partes de Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. A Gruta Olhos d’Água desenvolve-se em rochas carbonáticas do Grupo Bambuí, especialmente calcários e dolomitos das formações Januária e Itacarambi. Trata-se de uma das maiores cavidades da região, com aproximadamente 9,1 quilômetros de desenvolvimento horizontal e desnível total de cerca de 126 metros. A caverna possui circulação hídrica permanente ao longo de seu conduto principal, embora durante a estação chuvosa ocorram inundações periódicas que podem elevar significativamente o nível da água. O substrato predominante é constituído por areia e silte, com acúmulo de matéria orgânica vegetal transportada pelas enchentes, além de seixos e cascalhos provenientes do ambiente superficial. Na Gruta Olhos d’Água, C. eleonorae ocorre na zona afótica, ao longo de trechos associados ao curso d’água subterrâneo. Estudos populacionais realizados em um trecho de 1.500 metros da cavidade indicaram que a espécie integra a comunidade de aracnídeos cavernícolas juntamente com o opilião troglóbio Iandumoema uai e os opiliões troglófilos Eusarcus cavernicola e E. aduncus. A presença de micro-hábitats, como fendas na rocha, pequenas tocas, cortinas e concreções, foi associada à distribuição dos troglóbios na caverna, incluindo C. eleonorae. A espécie foi observada principalmente em pequenas galerias laterais, fendas e cavidades presentes nas paredes, ambientes caracterizados por elevada umidade e relativa estabilidade ambiental. Fêmeas observadas na cavidade foram registradas transportando até 15 ovos e cinco embriões, evidenciando que a reprodução ocorre integralmente no ambiente subterrâneo. O aporte alimentar na Gruta Olhos d’Água ocorre principalmente durante o período chuvoso, quando o aumento do fluxo hídrico transporta para o interior da caverna detritos vegetais, como galhos, folhas e sementes. Também há manchas de guano fresco de morcegos ao longo do conduto, fornecendo recursos adicionais para a comunidade subterrânea. A cavidade é considerada um dos principais sítios de diversidade troglóbia do Brasil, abrigando diversas espécies subterrâneas endêmicas e táxons de elevado interesse biogeográfico, o que reforça sua importância para a conservação da fauna cavernícola regional. Nenhum exemplar de C. eleonorae foi encontrado nas galerias superiores mais secas, onde ocorre o amblipígio Trichodamon froesi, sugerindo segregação de micro-hábitat entre as duas espécies. Embora sua distribuição conhecida permaneça restrita a poucas cavidades do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, a Gruta Olhos d’Água e a Lapa do Cipó provavelmente integram um mesmo sistema subterrâneo. Na época da descrição da espécie, a única outra espécie brasileira troglomórfica conhecida do gênero era C. troglobius, registrada em cavernas da Serra do Ramalho, no sudoeste da Bahia, cerca de 200 quilômetros ao norte de Itacarambi e igualmente associada à bacia do São Francisco.
Ecologia Charinus eleonorae é um aracnídeo predador de hábitos predominantemente noturnos, associado a ambientes úmidos e que utiliza uma estratégia de caça do tipo senta-e-espera para capturar suas presas. Foi coletado na zona escura da Gruta Olhos d’Água, ao longo de uma galeria cilíndrica atravessada por um curso d’água subterrâneo. Essa galeria fica completamente inundada durante as grandes chuvas da estação úmida. Os indivíduos foram encontrados principalmente em pequenas galerias, fendas e cavidades presentes nas paredes da caverna, utilizadas como refúgio. Durante a coleta, os exemplares tentavam ativamente se esconder, provavelmente em resposta ao deslocamento de ar provocado pelos pesquisadores em condutos fechados. Esse comportamento criptobiótico é considerado típico de aracnídeos cavernícolas e pode contribuir para as baixas taxas de detecção e recaptura observadas em estudos populacionais. Nenhum exemplar foi encontrado nas galerias superiores secas, onde o friníquido Trichodamon froesi era abundante. Em sentido inverso, apenas um exemplar desse amblípigo de grande porte foi registrado na galeria do curso d’água, próximo a um conduto lateral vindo das galerias superiores, indicando uma clara segregação de micro-hábitat entre as duas espécies. Segundo os autores, separação semelhante de nicho entre espécies menores de Charinus e amblipígios maiores dos gêneros Trichodamon ou Heterophrynus foi observada em outras cavernas brasileiras. Uma hipótese proposta para explicar esse padrão é que espécies menores de Charinus apresentem maior tolerância à imersão temporária ou ao deslocamento por correntezas durante os períodos de inundação. Estudos de marcação e recaptura indicaram que a espécie apresenta deslocamentos reduzidos dentro da caverna, sugerindo baixa mobilidade e elevada fidelidade aos refúgios ocupados. Esse padrão é compatível com o observado em outros amblipígios, que frequentemente permanecem por longos períodos nas mesmas fendas e cavidades, utilizando áreas de vida restritas. Em seis campanhas de amostragem foram registradas 207 capturas, mas apenas 14 recapturas, resultado atribuído ao uso frequente de fendas e outros refúgios de difícil acesso, além do comportamento críptico da espécie. Também foram registradas evidências reprodutivas: uma fêmea portava uma ooteca contendo 15 ovos e outra apresentava cinco embriões em desenvolvimento. Observações posteriores confirmaram que as fêmeas podem carregar até 15 ovos e cinco embriões simultaneamente, indicando um ciclo reprodutivo inteiramente associado ao ambiente subterrâneo.
Conservação Entre junho de 2014 e outubro de 2015 foram realizadas seis campanhas de amostragem na Gruta Olhos d’Água com o objetivo de estimar parâmetros populacionais de C. eleonorae. Durante o estudo, foram registrados 207 indivíduos capturados e apenas 14 recapturas, indicando uma baixa taxa de reencontro dos exemplares previamente marcados. Modelos de captura e recaptura estimaram uma população de aproximadamente 148 indivíduos, com densidade média de cerca de 0,04 indivíduo por metro quadrado. Esses valores são consideravelmente inferiores aos observados para outras populações de aracnídeos da própria Gruta Olhos d’Água, incluindo espécies troglófilas e o opilião troglóbio Iandumoema uai, e figuram entre as menores estimativas populacionais registradas para aracnídeos cavernícolas brasileiros. Os autores atribuíram a baixa abundância observada, ao menos em parte, ao comportamento criptobiótico da espécie. Os indivíduos permanecem frequentemente abrigados em fendas e cavidades das paredes rochosas, o que dificulta sua detecção durante as amostragens. As recapturas também indicaram deslocamentos reduzidos dentro da caverna, sugerindo baixa mobilidade e elevada fidelidade aos refúgios ocupados, padrão compatível com o observado em outros amblipígios. Devido à ausência de dimorfismo sexual aparente, não foi possível distinguir machos e fêmeas durante o estudo nem realizar análises populacionais separadas por sexo. A tendência populacional da espécie permanece desconhecida. Apesar das limitações impostas pelo ambiente subterrâneo, os autores consideraram que a Gruta Olhos d’Água apresenta condições favoráveis para a manutenção de populações troglóbias, devido à elevada umidade relativa do ar, estabilidade térmica e disponibilidade de micro-hábitats adequados. Além de abrigar C. eleonorae, a cavidade sustenta diversas espécies subterrâneas especializadas e elevada diversidade biológica, sendo considerada uma área prioritária para a conservação da fauna cavernícola brasileira. Os autores destacaram ainda que a ressurgência da caverna localiza-se fora dos limites do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, permanecendo sem a mesma proteção legal conferida aos setores internos da unidade de conservação, o que pode representar um fator adicional de vulnerabilidade para o ecossistema subterrâneo local. As principais ameaças identificadas para a espécie estão relacionadas à alteração do regime hídrico subterrâneo. A Gruta Olhos d’Água é utilizada para captação de água destinada a atividades agropecuárias e possui barramentos construídos em seu interior para armazenamento de água durante a estação seca. A Lapa d’Água João Ferreira também sofre impactos decorrentes da retirada de água subterrânea. Além disso, desmatamentos ocorridos a montante das cavernas podem reduzir o aporte de matéria orgânica transportada pelas enxurradas, recurso do qual a comunidade subterrânea depende fortemente. Também foram apontados como fatores de preocupação a diminuição histórica das precipitações na região e possíveis alterações hidrológicas associadas ao projeto de transposição do rio São Francisco, capazes de modificar a frequência e a intensidade dos alagamentos das cavernas e afetar a disponibilidade de recursos para a fauna troglóbia. Em avaliação nacional realizada em 25 de maio de 2018 e publicada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em 2025, a espécie foi classificada como Em Perigo (EN) pelo critério B1ab(iii), em razão de sua distribuição extremamente restrita, conhecida de apenas duas localizações funcionais, com extensão de ocorrência estimada em cerca de 30 quilômetros quadrados e sujeita a declínio continuado na qualidade do hábitat. Em avaliação prévia, realizada em 2010, na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção de 2014 e em sua atualização promovida pela Portaria MMA n.o 148/2022, bem como no Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção de 2018, com base na avaliação de 2014, a espécie foi classificada como Criticamente em Perigo (CR) pelos critérios B1ab(iii)+B2ab(iii), em razão de sua distribuição extremamente restrita e do declínio continuado da qualidade do hábitat decorrente da captação de água, barramentos subterrâneos, desmatamentos a montante e alterações no regime hidrológico da região. Charinus eleonorae ocorre no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e na Área de Proteção Ambiental Cavernas do Peruaçu, além de estar contemplada pelo Plano de Ação Nacional para a Conservação das Cavernas do Brasil.
Notas [a] ^ Os critérios B1ab(iii)+B2ab(iii) da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) são aplicados a espécies que apresentam distribuição geográfica muito restrita e sofrem ou podem sofrer declínio contínuo na qualidade de seu hábitat. O subcritério B1 refere-se à extensão de ocorrência (EOO), que corresponde à área delimitada pelos registros conhecidos da espécie, enquanto o subcritério B2 considera a área de ocupação (AOO), representada pelos locais efetivamente ocupados dentro dessa distribuição. Para o enquadramento na categoria Criticamente em Perigo (CR), esses parâmetros devem apresentar valores extremamente reduzidos, associados a evidências de fragmentação severa, ocorrência em poucas localidades ou outros fatores que aumentem a vulnerabilidade da espécie a eventos ambientais ou antrópicos. A notação “ab(iii)” indica que, além da distribuição restrita, existe um declínio contínuo observado, estimado, inferido ou projetado. A letra “a” refere-se ao número reduzido de localidades ou à fragmentação severa das populações, enquanto “b(iii)” corresponde à deterioração da extensão, área ou qualidade do hábitat. Assim, uma espécie enquadrada pelos critérios B1ab(iii)+B2ab(iii) apresenta simultaneamente extensão de ocorrência e área de ocupação extremamente pequenas, está restrita a poucas localidades ou a populações isoladas e enfrenta perda ou degradação progressiva do ambiente necessário à sua sobrevivência, circunstâncias que elevam significativamente seu risco de extinção.
Referências
Ligações externas Documentos sobre Charinus eleonorae na Biodiversity Heritage Library