Jair Ventura: 'É ignorância pensar que o passaporte define se um técnico é melhor que o outro'

Treinador do Vitória analisa presença maciça de profissionais estrangeiros no Brasil. Crédito: Estadão

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Apelidado de “o gringo mais querido do Brasil”, Dejan Petkovic foi pego de surpresa com a nova regra da CBF que reduz o limite de estrangeiros no Brasileirão. Em entrevista por videoconferência ao Estadão, diretamente de sua casa no Rio, o sérvio de 54 anos entende ser necessário aguardar para saber quais serão os impactos da proposta, mas avalia que a mudança não deve solucionar o “problema na formação de jogadores” do País.

Atualmente, os times brasileiros podem relacionar nove estrangeiros por partida em competições da CBF. O limite será reduzido gradualmente até 2030, quando serão permitidos apenas cinco. A mudança ocorre sob a justificativa de abrir espaço para jogadores formados nas categorias de base. Para o ex-jogador, a busca incessante por resultados prejudica estruturalmente a revelação de talentos no futebol brasileiro.

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“A formação é muito mais vista na Espanha, que formou o próprio Messi — que é estrangeiro”, exemplifica. “Não importa de onde você é. O que importa é o que você apresenta. Lá é performance no campo, cultura de formação. Como você educa, bota conceito e filosofia no jogador. A formação começa a partir de 12 anos”, diz.

“Aqui, a gente tem uma metodologia de formação diferente e forma jogadores diferentes. Filosofia e conceito não se implementam, porque o resultado é o que importa. ‘Eu quero ganhar. Se eu ganho, sou bom técnico.’ E isso é um problema, porque aí você força, na base, os jogadores que são mais altos, mais fortes, e não ensina a eles todo o desenvolvimento que deveriam ter”, comenta Pet.
Dejan Petkovic foi um dos estrangeiros mais bem sucedidos do futebol brasileiro. Foto: Dusan Zdravkovic
É justamente essa lacuna na formação que, segundo Pet, ajuda a explicar por que os grandes clubes europeus buscam joias brasileiras cada vez mais cedo. O ex-jogador destaca que talentos deixam o País após completarem 18 anos para concluir o processo de formação no Velho Continente. Assim, além de desenvolver o atleta dentro de sua própria metodologia, os clubes fazem com que ele passe a ser considerado “formado localmente”, driblando a regra estabelecida para estrangeiros.
“Por que os times lá da Europa, da Inglaterra ou das principais prateleiras pegam jogadores mais jovens aqui, craques? Porque daqui a três anos, quando se forma lá, ele é formado e já não é mais estrangeiro. Por isso eles vão com 18 anos, o que é o caso do Estêvão, do Rodrygo e do Endrick... ”, explica.
Ídolo do Flamengo, Petkovic é o estrangeiro com mais jogos na história do Campeonato Brasileiro (271), mas ele diz “não ser mais estrangeiro faz tempo”, apesar de manter a cidadania sérvia. “Sou carioca da gema, pô”, brinca o ex-jogador, que mora no Brasil de forma praticamente ininterrupta desde 1997, quando desembarcou no País para atuar no Vitória, da Bahia. Após encerrar sua trajetória como comentarista do Grupo Globo, o ex-jogador diversificou suas atividades no ambiente esportivo e empresarial. Entre elas a Petkovic TV, que recebe convidados vinculados ao esporte, cultura e entretenimento.
Ao analisar a mudança de regulamento sugerida pela CBF, o ex-jogador e comentarista pondera sobre a durabilidade da proposta. “A gente não sabe se vai durar, se vai ser implementada e quanto tempo vai ficar em vigor. A gente pode ver que até 2013 a gente teve três estrangeiros, depois disso começou a subir até chegar. Essas mudanças acontecem todo ano”, analisa.
Petkovic teve passagem em diversos clubes do futebol brasileiro, mas ficou marcado pelos títulos Carioca e do Brasileirão no Flamengo. Foto: Marcos de Paula/ AE
Trânsito para atletas do Mercosul
Ao apresentar a mudança para a votação dos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, a CBF afirmou ter analisado o cenário brasileiro em comparação com as principais ligas da Europa (Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França). Nos campeonatos espanhol e francês, por exemplo, o termo “estrangeiro” é usado para jogadores extracomunitários, ou seja, nascidos fora da União Europeia (UE).
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Além disso, por meio do Acordo de Cotonu, parceria comercial entre a UE e países da África, do Caribe e do Pacífico, atletas nascidos em nações abrangidas pelo tratado não são considerados extracomunitários.
Tal acordo é citado por Petkovic, que contesta a classificação simplista de atletas sul-americanos como estrangeiros no Brasil, citando os acordos econômicos e os blocos regionais. “Se o Brasil faz parte do grupo Mercosul, então por que (um argentino ou uruguaio) seria estrangeiro se temos um tratado do Mercosul do Comércio? Ou por acaso é preciso passaporte para viajar aos países vizinhos?”, provoca o sérvio. “Um estrangeiro depois de quatro anos aqui no solo brasileiro trabalhando tem direito de se naturalizar.”
Se o Brasil faz parte do grupo Mercosul, então por que (um argentino ou uruguaio) seria estrangeiro se temos um tratado do Mercosul do Comércio?
Petkovic, ex-jogador sérvio
Pet defende, ainda, um debate anual sobre o tema e ressalta a necessidade de um modelo que se adeque às necessidades do Brasil. Para ele, o Brasil não pode somente se basear no regulamento da Inglaterra, da Alemanha ou da Espanha, mas sim focar em estabelecer normas adequadas à cultura brasileira.
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“Quando eu era jogador, os estrangeiros no Brasil eram poucos. Normalmente vinham só os craques, quem fazia a diferença. ”Hoje já temos estrangeiros que vêm para compor elenco. Então os clubes vão ter mais cuidado na hora de contratar."
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Passagem pelo Real Madrid e sucesso no Brasil
Revelado no futebol sérvio, Petkovic se destacou pelo Estrela Vermelha, clube pelo qual conquistou dois títulos da Copa da Iugoslávia e o campeonato nacional da temporada 1994/95. Depois, passou pelo Real Madrid, com o qual foi campeão espanhol em 1996/97 e da Supercopa da Espanha em 1997.
No Brasil, ganhou destaque ao conquistar o Campeonato Baiano e a Copa do Nordeste, pelo Vitória, em 1999, além de terminar como artilheiro das duas competições naquele ano. Pelo Flamengo, conquistou dois Campeonatos Cariocas, em 2000 e 2001 — este último com gol marcante de falta no fim do clássico contra o Vasco —, a Copa dos Campeões, de 2001, e o Campeonato Brasileiro, de 2009, em uma temporada na qual foi eleito o melhor jogador do ano pelo Troféu Mesa Redonda.
Ao longo da carreira no futebol brasileiro, Petkovic também foi escolhido para a seleção do Campeonato Brasileiro em 2005 e 2009 e recebeu três Bolas de Prata, em 2004, 2005 e 2009. Fora do Brasil, ainda conquistou a Liga dos Campeões Árabes pelo Al-Ittihad, em 2005.
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