Principais candidatos ao Senado por SP são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato

Imagem: Ana Paula Almeida/Terra

- Isabella Lima

- Beatriz Araujo

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21 set 2026 - 04h58

Após deixar o Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede) quer ocupar uma das cadeiras do Senado por São Paulo. Em entrevista ao Terra, ela aponta haver "contaminação política" no Supremo Tribunal Federal (STF) e considera que a discussão a respeito de impeachment de ministros deve contar com mecanismos de autocorreção, que devem ser aplicados "sem dois pesos e duas medidas". Marina também rebate críticas da oposição, que a chamam de forasteira por disputar um cargo no estado paulista, e evita comentar sobre críticas passadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

- Essa reportagem faz parte de uma série de entrevistas do Terra com os candidatos ao Senado por São Paulo. Além de Marina Silva (Rede), também foram convidados Simone Tebet (PSB), André do Prado (PP), Geraldo Rufino (Podemos), Guilherme Derrite (PP), Ricardo Salles (Novo) e Soninha Francine (Cidadania)

Detalhista e com posicionamentos firmes sobre temas sociais e ambientais, Marina defende a necessidade de reformas no Judiciário e comenta sobre temas polêmicos no Congresso Nacional: como aborto, castração química e redução da maioridade penal. A candidata ainda falou sobre suas propostas para São Paulo nas áreas de meio ambiente, segurança climática, economia e desenvolvimento sustentável.

Confira os principais pontos da entrevista:

Crise no STF

Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal, Marina Silva destrincha o atual momento em dois pontos: o da crise, de extrema gravidade, que precisa ser resolvida; e o da necessidade de criar medidas estruturantes para que situações como essa não se repitam. A candidata defende ainda a necessidade de acelerar o processo de reforma no Judiciário e da consolidação de um código de ética para orientar o comportamento de ministros.

“Talvez não fosse necessário [haver um código de ética específico ao STF], porque a própria Constituição já diz que qualquer pessoa que vai para o serviço público deve observar os estritos fundamentos da probidade, da impessoalidade e da transparência. Quando esses princípios são feridos, você precisa de algo mais. E aí o código de ética entra para vir em socorro da falta de cumprimento desses princípios constitucionais”, analisa em entrevista concedida no último dia 16 de setembro, um dia após o julgamento de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por seu suposto elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master.

“São graves os fatos que foram revelados referentes ao ministro Alexandre de Moraes, mas também é grave termos uma ação no Supremo que está muito contaminada pela conjuntura política. Porque, quando se revelam fatos para um lado e outros são guardados em segredo de Justiça, isso demonstra [uma tomada de] partido político, como, ao que tudo indica, tem sido feito pelo ministro Mendonça" -- Marina Silva
Sobre a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo serem pautados no Congresso, Marina pondera que o processo é previsto na Constituição Federal, que o Senado tem o mandato constitucional para aprovar ou desaprovar, mas o que não pode acontecer é a “banalização do impeachment”.
“Se alguém cometeu o crime, se ficar comprovado que esse alguém incorreu em crime de responsabilidade, é papel do Senado [discutir o impeachment]. [...] Agora, nós sabemos que o próprio Congresso Nacional, as duas casas, precisam olhar para si próprios. Nós temos muitos casos, e casos graves, de quebra de decoro parlamentar, em que os parlamentares não levaram às últimas consequências no conselho de ética. Os mecanismos de autocorreção previstos na lei ou na Constituição devem ser aplicados sem dois pesos e duas medidas”, diz Marina.
Cadeiras do Supremo
O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos -- o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e que Lula teve sua indicação, de Jorge Messias, rejeitada pelo Senado. Com relação à renovação, o que Marina defende é que se tenha ao menos uma mulher.
“É preciso que tenhamos a oportunidade de fazer essa reparação histórica em relação à presença das mulheres. Somos apenas 18% na Câmara dos Deputados, 19% no Senado, e, no Judiciário, é inadmissível que não sejam indicadas mulheres.”
De Acre a São Paulo
Candidatos ao Senado chamam Marina, que nasceu no Acre e teve sua trajetória política fortalecida na região Norte, de forasteira por disputar uma vaga ao Senado por São Paulo. Ela rebate, dizendo que o povo paulista já confiou nela ao a eleger deputada federal pelo Estado em 2022. Marina reforça que é casada com um paulista, que já recebeu título de Cidadã Paulista há mais de 30 anos e que tem uma relação histórica com São Paulo.
“Em 2022, duas pessoas ganharam notoriedade na conjuntura política nacional por mudarem o seu domicílio eleitoral dos seus estados de origem para São Paulo. Uma delas fui eu. Outra pessoa foi Tarcísio, que hoje é o governador de São Paulo, que mudou seu domicílio do Rio de Janeiro para São Paulo, concorreu ao governo e ganhou. Eu não vejo ninguém cobrando isso de Tarcísio” -- Marina Silva
Para a candidata, a chamar de forasteira é também ofender as milhares de pessoas que vieram de outros estados para construir um São Paulo melhor. “Essas pessoas não são cidadãos de segunda classe, são de primeira classe. Se eles podem votar neles, eles também podem ser votados.”
Críticas que fez no passado a Lula
Em 2018, quando concorria à presidência da República, Marina chegou a dizer que Lula era corrupto e que não se arrependia de ter apoiado o impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016. De lá para cá, voltou a ser ministra do Meio Ambiente no governo do petista e agora concorre ao Senado também como aliada. O que mudou com relação às percepções? As críticas permanecem?
“O que mudou foi esse País”, responde Marina, de bate-pronto. Sem responder diretamente a pergunta, ela diz ter ocorrido um assalto à democracia brasileira e cita a trama golpista do 8 de Janeiro. “Todos os democratas se uniram e graças a Deus que existiu o presidente Lula para defender a democracia. E eu sou ministra pela terceira vez e pela terceira vez fizemos um excelente trabalho”, argumenta, citando que agora a soberania também está sendo ameaçada.
"Em relação ao impeachment [da então presidenta Dilma Rousseff] tinha um contexto ali colocado. E ele foi colocado do mesmo jeito que, em 2014, que um contexto em que nos colocou em polos diferentes. Eu não vejo as pessoas fazendo essas mesmas perguntas para a situação de 2014. Eu acho que ninguém faz política com o fígado. Eu faço política com o coração. Política, para mim, é serviço" -- Marina Silva
- Em 2014, Marina Silva assumiu a candidatura à presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) após a morte de Eduardo Campos em um acidente aéreo. Naquela corrida eleitoral, Dilma Rousseff (PT) tentava a reeleição e sua campanha foi marcada por uma intensa propaganda negativa contra Marina, desgastando a imagem da política.
Feminicídio
São Paulo bateu recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências -- o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso?
Outra coisa que é fundamental fazer para as mulheres é garantir que elas tenham autonomia. Uma mulher precisa de acesso à creche para poder trabalhar, para poder estudar. Mulheres muitas vezes precisam de crédito para poder investir, abrir seu próprio negócio. Mulheres precisam de tempo. Por isso, o fim da jornada 6 por 1, para que as mulheres tenham mais tempo para se dedicar a si mesmas, à sua família. [Elas precisam de] transporte, uma rua iluminada, uma casa"
O caminho, para Marina Silva, é o que já está sendo trabalhado para que aconteça: ela cita o funcionamento 24 horas de delegacias com profissionais capacitados para receber mulheres vítimas de violência e a importância de fortalecer a rede de proteção. Marina reforça a importância de acesso à creche, trabalho, estudo, crédito e tempo para que essas mulheres tenham autonomia.
Redução da maioridade penal
O Congresso tem discutido sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, e o assunto também se faz presente nas campanhas eleitorais deste ano. Para Marina, não é de agora que vê a pauta da segurança pública como uma prioridade a ser discutida, e que a questão de violência cometida por crianças ou adolescentes transpassam a questão da segurança -- mas reforça que já há uma estrutura específica para esses casos.
“Não é que o menor que comete um delito grave, uma infração grave, ele não tem nenhum mecanismo, nenhuma estrutura de recolhimento. Esse menor deve ser recolhido, interditado do convívio com a sociedade nos termos que ele tinha antes. O problema é que algumas pessoas se apropriam dessa agenda de forma populista, não preocupados com segurança pública” -- Marina Silva
Marina defende que é preciso fazer uma discussão com especialistas multidisciplinares para entender qual é o melhor caminho para essa interdição a jovens que cometeram crimes.
Aborto
Sobre o direito ao aborto, Marina Silva é favorável à manutenção do que já foi estabelecido por decisões da Suprema Corte. Ela se posiciona pessoalmente contrária ao aborto, mas defende que mulheres que passam por essa situação não sejam criminalizadas ou estigmatizadas.
“Uma mulher não faz aborto como medida contraceptiva, ela faz em uma situação extrema. Não deve ser satanizada, deve ser acolhida. Mas eu, pessoalmente, sou contra o aborto” -- Marina Silva
Marina lembra ainda que, em 2010, quando ocupava o cargo de senadora pelo Estado do Acre, propôs a realização de um plebiscito para discutir a questão do aborto no País. Segundo ela, a consulta permitiria um debate mais amplo com a sociedade sobre o tema, a exemplo do que ocorre em outros países e regiões.
- Atualmente, a legislação brasileira permite a interrupção da gravidez em três situações: quando há risco de vida para a gestante, quando a gravidez é fruto de violência sexual ou estupro de vulnerável e em casos de anencefalia fetal, conforme decisão do STF. Nessas hipóteses, o atendimento deve ser oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sem necessidade de autorização judicial ou de boletim de ocorrência. Fora dessas exceções, a interrupção voluntária da gestação é considerada crime pelo Código Penal.
Castração química
Marina Silva é contra a adoção da castração química como forma de punição para pessoas condenadas por estupro. Para ela, o combate a esse tipo de crime deve passar por investigação rigorosa e pela aplicação de penas severas aos responsáveis.
A candidata leva em conta os apontamentos de especialistas sobre o tema, considerando que entidades de direitos humanos e parte da comunidade científica apontam limitações e preocupações relacionadas ao método.
"No Brasil, você pode ter pena máxima, que é quase que prisão perpétua. Aqueles que cometem esse crime [violência sexual] devem receber a pena máxima" -- Marina Silva
Meio Ambiente e oportunidade
Marina Silva consolidou sua trajetória na pauta ambiental com foco na região Norte e na realidade da Amazônia, e comenta sobre o olhar específico que também tem sobre São Paulo --onde pretende tocar uma agenda ambiental voltada à adaptação às mudanças climáticas e ao desenvolvimento sustentável.
“São Paulo é um Estado vulnerável”, diz a ex-ministra do Meio Ambiente, que destaca que o Estado tem 177 dos 2.095 municípios brasileiros considerados suscetíveis a eventos climáticos extremos. Mesmo assim, vê São Paulo como um Estado com condições para iniciar um “novo ciclo de prosperidade”.
Entre as prioridades, a candidata defende investimentos em adaptação, drenagem, contenção de encostas e remoção de populações de áreas de risco. Ela também propõe um programa de recuperação de matas ciliares para recuperar córregos, nascentes e mananciais e melhorar a segurança hídrica.
“São Paulo é um estado que pode ajudar na transição energética do nosso País, principalmente com os biocombustíveis, e pode ajudar na transição energética do planeta, desde que a gente não tenha o tarifaço [de Trump], que está prejudicando o setor sucroenergético do nosso estado” -- Marina Silva
Inteligência artificial
Marina Silva defende a regulamentação da inteligência artificial e avalia que o tema exige atenção diante dos impactos que a tecnologia pode ter sobre o desenvolvimento humano. Para ela, embora a IA traga benefícios, também pode gerar prejuízos em diferentes áreas, inclusive nos processos de ensino e aprendizagem.
A candidata comenta sobre como o uso excessivo ou inadequado da tecnologia pode provocar uma “inibição cognitiva” e impactar nos processos de aprendizagem de crianças e adultos.
“É preciso sim uma regulamentação. A inteligência artificial traz grandes benefícios, mas pode trazer também grandes malefícios em relação, inclusive, aos processos de ensino e aprendizagem. É fundamental uma regulamentação que faça com que a tecnologia esteja a serviço da humanidade e não ao contrário” -- Marina Silva
Dívida pública
A Dívida Bruta do Governo Geral do Brasil já ultrapassa 80% do Produto Interno Bruto (PIB) e é uma das grandes problemáticas do País, conforme apontam especialistas. Sobre o tema, Marina reconhece que a necessidade do equilíbrio fiscal, mas defende que a busca por controle das contas públicas não ocorra em detrimento de políticas sociais, como investimentos em saúde e educação.
“Tem uma parte que faz uma apologia do equilíbrio fiscal em prejuízo da saúde, da educação”, alega. Nisso, a candidata aproveitou para criticar medidas adotadas pelo governo Jair Bolsonaro (PL) na tentativa de melhorar o resultado fiscal, citando recursos do Bolsa Família, precatórios e saúde. Segundo Marina, houve um sacrifício de políticas públicas importantes.
Pensando em soluções, Marina entende que investimentos em indústria, agricultura e desenvolvimento econômico podem ampliar a arrecadação e contribuir para o equilíbrio das contas.
Em 2010 [quando era senadora], eu já dizia que o gasto público tinha que ser a metade do que a gente arrecadava, exatamente para não incorrer em endividamento e ao mesmo tempo manter o equilíbrio fiscal
Prioridades no Senado
Marina diz que já foi eleita pelo povo paulistano, quando a escolheram para ser deputada federal pelo Estado. Na ocasião, em 2022, ela deixou o cargo para ser ministra de Lula. Agora, mesmo em uma eventual reeleição do petista, ela afirma que pretende cumprir os oito anos de mandato.
No caso, ela explica que ver necessidade de retornar ao Ministério do Meio Ambiente, que “foi reconstruído durante sua gestão, com aumento de orçamento, redução do desmatamento, realização de concurso público para especialistas atuarem na área, e retomada de políticas de conservação”.
Sua prioridade agora é atuar no Congresso Nacional e, em um futuro, não pretende disputar novamente a Presidência da República. Depois de ter sido candidata ao cargo três vezes, diz que quer chegar a 2030 com a democracia estabilizada e sem riscos à soberania nacional.
“Se eleita senadora por São Paulo, eu vou cumprir o meu mandato de senadora, porque agora o risco é o Congresso Nacional. O risco à democracia, o risco à própria legislação ambiental, o risco aos direitos das mulheres” -- Marina Silva
Entre as áreas que pretende defender estão as políticas sociais, uma reforma do Judiciário, uma reforma política e os direitos das mulheres. Como suas principais bandeiras para o Senado, Marina também fala sobre a criação de um marco legal da emergência climática. A proposta, segundo ela, teria mecanismos voltados à proteção de pessoas afetadas por eventos extremos e à segurança climática, energética e alimentar. “Quero ser a senadora que, além de todos os outros assuntos, crie instrumentos econômicos e deixe como contribuição para esse País o marco legal da emergência climática”, destaca.

