O Grande Cometa de 1901, formalmente designado C/1901 G1 (e nas nomenclaturas antigas como 1901 I e 1901a), também conhecido como Cometa Viscara, foi um cometa não periódico que se tornou notavelmente brilhante na primavera austral de 1901. Visível quase exclusivamente do Hemisfério Sul, foi descoberto na madrugada de 12 de abril de 1901 como objeto a olho nu de segunda magnitude, com uma curta cauda. No dia do periélio, a cabeça do cometa foi descrita como de cor amarelo intenso, arrastando uma cauda de 10°. O último avistamento a olho nu ocorreu em 23 de maio de 1901.

Descoberta e controvérsia de prioridade Na madrugada de 12 de abril de 1901, um homem identificado apenas como Viscara, administrador de uma estância no Departamento de Paysandú, no Uruguai, avistou a olho nu o que seria registrado como o Grande Cometa de 1901. O objeto já apresentava segunda magnitude e uma cauda curta visível sem auxílio óptico. Lorenzo Kropp, astrônomo amador que mantinha um observatório próprio em Paysandú, recebeu notícia do cometa em 15 de abril por meio de um informante identificado como A. Justo, mas não pôde observá-lo imediatamente devido ao mau tempo. Sua primeira observação ocorreu apenas em 20 de abril. Em 5 de maio, Kropp realizou um desenho detalhado do cometa com seu telescópio portátil de 68 mm de diâmetro e o enviou acompanhado de uma descrição ao presidente da Société Astronomique de France. Foi Kropp quem relatou a observação de Viscara de 12 de abril às Astronomische Nachrichten, em carta de 25 de maio de 1901. Do ponto de vista da comunidade astronômica internacional, contudo, a descoberta oficial foi atribuída a observações realizadas em 23 e 24 de abril por múltiplos observadores no Hemisfério Sul. Brian Marsden, então diretor do Minor Planet Center (MPC), ao comentar o caso, reconheceu a observação de Viscara em 12 de abril, mas destacou que a confirmação independente por múltiplos observadores profissionais em 23–24 de abril foi o evento que efetivamente alertou a comunidade astronômica para a existência do cometa. Na madrugada de 23 de abril, o cometa foi observado em Queenstown, na África do Sul. No dia seguinte, 24 de abril, David Gill e Robert Innes realizaram observações no Observatório Real do Cabo da Boa Esperança; a cauda media então cerca de 10° de comprimento, e o núcleo apresentava coloração nitidamente amarelada. Na mesma data, o cometa foi avistado no Cabo Leeuwin, na Austrália Ocidental. Em 25 de abril, H. C. Russell, no Observatório de Sydney, registrou uma cauda de aproximadamente 2° de comprimento.

Observações e evolução

Em 3 de maio, o cometa apresentava uma cauda reta de 30° e uma cauda curva de até 10°, com a cabeça em torno da magnitude 0. O objeto percorria a fronteira entre as constelações de Touro e Erídano. Em 2 de maio, o núcleo chegou a rivalizar com Sírius em brilho e apresentava forma elíptica distinta. Quando o brilho atingiu o máximo, em 5 de maio, a cauda havia se aberto em leque: uma fraca cauda de plasma com cerca de 45° de comprimento e uma cauda de poeira curva de cerca de 15°. A magnitude atingiu aproximadamente +1, podendo ter chegado a −1 ou −2 em observações telescópicas do núcleo após o nascer do sol, segundo alguns observadores. Em 5 de maio, ao menos dois relatos independentes descreveram ondulações semelhantes a auroras na cauda do cometa.

Segundo Chambers (1909), a cauda principal não excedia 10° de comprimento, mas era precedida por uma cauda tênue de plena 30°, que se ramificava a partir da principal formando com ela um ângulo de cerca de 40°. Em 12 de maio, embora o cometa tivesse se tornado intrinsecamente mais fraco, continuava sendo um objeto magnífico: entre as duas caudas principais eram visíveis mais duas caudas finas, totalizando quatro estruturas caudais distintas. O espectro parecia ser contínuo. Eddie, em Naauwpoort, na África do Sul, descreveu a matéria que compunha a cauda longa como de aparência estriada. Em 13 de maio, o capitão Percy Molesworth fotografou o cometa de seu observatório em Trincomalee, no Ceilão (atual Sri Lanka), usando uma lente fotográfica Cooke & Sons de 8,42 polegadas de comprimento focal. As fotografias revelaram três caudas: duas principais correndo de forma quase paralela, separadas por uma faixa escura marcante — estrutura já perceptível a olho nu desde o início de maio e visível na fotografia do Observatório do Cabo de 7 de maio — e uma terceira peculiar, que não partia do núcleo, mas de um ponto logo atrás dele. As duas caudas principais — a cauda de plasma, reta e apontada diretamente para longe do Sol pelo vento solar, e a cauda de poeira, curva e formada por partículas sólidas que seguem a trajetória orbital — eram visíveis a olho nu desde o início de maio, com ondulações semelhantes a auroras registradas em 5 de maio. A terceira cauda, detectada apenas fotograficamente, é astronomicamente incomum: sua origem atrás do núcleo, e não nele, pode indicar a ejeção de material por jatos ativos em uma região específica do núcleo durante o pico de atividade próximo ao periélio, ou ainda a formação de uma cauda anômala — fenômeno que ocorre quando a Terra cruza o plano orbital do cometa e a cauda de poeira parece apontar na direção do Sol, criando uma estrutura aparentemente separada. Edward Emerson Barnard também fotografou o cometa em 11 de maio de 1901. O astrônomo John Tebbutt, que observou o cometa em 32 noites a partir de Windsor (Nova Gales do Sul), descreveu o objeto em suas Astronomical Memoirs como notável: além da cauda principal e brilhante, havia uma cauda secundária, muito mais longa porém mais tênue, formando um ângulo de cerca de 35° a 40° em direção ao sul. Tebbutt registrou que o cometa era visível apenas no Hemisfério Sul, com participação restrita a poucos observatórios: o Observatório Real do Cabo, o Observatório Nacional Argentino em Córdoba e o Observatório Governamental de Perth, na Austrália. O cometa permaneceu claramente visível a olho nu até cerca de 20 de maio, com o último avistamento a olho nu em 23 de maio. Com telescópio, permaneceu observável até outubro de 1901. O estudo de Hamacher e Norris (2011) documenta que o Grande Cometa de 1901 foi observado por povos aborígenes australianos, constituindo um dos registros de astronomia indígena australiana que associam a aparição de cometas a eventos e tradições culturais específicas.

Órbita A partir de 160 observações realizadas ao longo de 43 dias, Charles J. Merfield (1866–1931) calculou a órbita do cometa, que se revelou parabólica, podendo ser calculada apenas nessa forma com os dados disponíveis. A inclinação orbital é de aproximadamente 131° em relação à eclíptica, indicando que o cometa percorreu uma órbita retrógrada em relação às órbitas planetárias. Em 10 de abril, o cometa se encontrava a cerca de 0,56 UA de Vênus, e em 21 de abril a aproximadamente 0,19 UA de Mercúrio. O periélio ocorreu em 24 de abril, com o cometa a cerca de 0,245 UA do Sol — equivalente a cerca de 23 milhões de milhas, conforme calculado por Merfield. Em 30 de abril, o cometa fez sua maior aproximação da Terra, a cerca de 0,83 UA (aproximadamente 124 milhões de quilômetros). Na data da primeira observação de Tebbutt em Windsor, 3 de maio, o cometa estava a cerca de 79 milhões de milhas da Terra; em 13 de junho, quando Tebbutt realizou sua última observação, havia se afastado para cerca de 193 milhões de milhas. O Grande Cometa de 1901 consta na lista de grandes cometas da história compilada pelo Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), com período de visibilidade a olho nu de 38 dias e magnitude máxima de +1. Um estudo de Fernández e Sosa (2012) incluiu o objeto na análise estatística de cometas de longo período em órbitas próximas ou de cruzamento com a Terra.

Legado O Grande Cometa de 1901 foi o último grande cometa a olho nu do início do século XX antes do Grande cometa de janeiro de 1910 (C/1910 A1), que apareceu em janeiro daquele ano. O período entre ambos foi descrito por pesquisadores como uma fase em que os astrônomos haviam sido "mimados" pelo grande número de cometas espetaculares do século XIX — com quatro grandes cometas a olho nu apenas na década de 1880. Seargent (2008), em sua obra sobre os maiores cometas da história, dedica uma entrada específica ao C/1901 G1, ressaltando que sua visibilidade quase exclusivamente austral o tornou um dos grandes cometas menos documentados do período moderno, apesar do brilho expressivo atingido em maio de 1901. O objeto também está catalogado no Comet Observation Database (COBS) sob a designação C/1901 G1 (Viscara).

Referências

Ligações externas «C/1901 G1 na JPL Small-Body Database» (em inglês) «Cometa C/1901 G1 (Viscara) no COBS» (em inglês) «The Bright Comet Chronicles (ICQ)» (em inglês) «Sobre el descubrimiento del Cometa 1901a» (em espanhol)