Esta não será uma escolha difícil. Ao contrário de eleições passadas, nas quais um número maior de candidatos chegou ao fim do primeiro turno com chances de passar para o segundo, desta vez são apenas dois: Lula e Flávio Bolsonaro. Um conta com os votos que acumulou ao longo de seis disputas presidenciais anteriores. O outro, com os votos transferidos por seu pai, condenado e preso desde o final do ano passado por tentativa de golpe de Estado.Goste-se dele ou não, um eventual novo governo Lula — o quarto desde 2002 — não promete surpresas arrepiantes, nem boas nem más. Um eventual governo Flávio, esse sim, será uma incógnita. Sua experiência administrativa resume-se ao fato de ter sido um dos donos de uma loja de chocolates. De resto, Flávio é o único candidato a presidente investigado pelos crimes de evasão de divisas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.Durante 16 anos como deputado estadual no Rio de Janeiro, o grosso de sua produção legislativa convertida em leis consistiu em datas comemorativas, inclusões no calendário oficial do estado e concessões de medalhas e honrarias a milicianos e a policiais civis e militares. Seus projetos voltados à segurança pública estrutural ou à alteração de regras penais locais costumavam ser rejeitados ou declarados inconstitucionais por vício de iniciativa.Em pouco mais de sete anos como senador, Flávio apresentou mais de 60 projetos de lei como autor principal. Apenas um deles, porém, virou lei federal: o PL 3.190/2023, que fez alterações técnicas no Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado. Lembra-se dele? Eu também não. O projeto impactou sua vida? Nem a minha. Os beneficiados pelas alterações técnicas no tal programa são gratos a Flávio? Se são, jamais se manifestaram publicamente.Flávio puxou ao pai até nisso. Nos seus 27 anos como deputado federal (de 1991 a 2018), Jair Bolsonaro apresentou mais de 170 projetos de lei e propostas de emenda. Desse total, apenas dois projetos de lei foram aprovados pelo Congresso, tornando-se leis federais. O primeiro estendeu o prazo de isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens de informática e automação industrial. Quanto ao segundo… Vamos adiante.Sancionado em abril de 2016 pela então presidente Dilma Rousseff, o projeto autorizava o uso e a distribuição da fosfoetanolamina sintética, conhecida como “pílula do câncer”, para pacientes diagnosticados com tumores malignos. Mais tarde, a eficácia da substância foi contestada e o Supremo Tribunal Federal suspendeu a lei por falta de testes clínicos que comprovassem a segurança do produto. Um vexame, concorda?.De volta a Flávio. Fui atrás de suas frases consideradas as mais marcantes pelo Google. Eis algumas:– “Estão usando uma estrutura de Estado para me atingir e atingir o governo de Jair Bolsonaro.” (Declaração repetida em transmissões ao vivo e coletivas de imprensa entre 2019 e 2021, período em que se defendia das investigações do caso das “rachadinhas” promovidas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.)– “Não tenho nenhuma ligação com milícia e não posso ser responsabilizado por atos de pessoas que passaram pelo meu gabinete há anos.” (Entrevista concedida em 2019 ao ser questionado pela imprensa sobre as homenagens feitas e o emprego de familiares do ex-capitão Adriano da Nóbrega em seu gabinete parlamentar.)– “Policial militar não pode ir para a rua com medo de ser preso por cumprir o seu dever de proteger a sociedade.” (Discurso recorrente na tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro ao defender o chamado “excludente de ilicitude”, que prevê blindagem jurídica para policiais que matam em serviço. A fala ocorreu em meio a debates contra comissões de Direitos Humanos que fiscalizavam as condições dos presídios fluminenses no início dos anos 2010.)– “A escala 6×1 é o que garante que o pequeno comércio consiga manter as portas abertas e gerar emprego no Brasil.” (Declaração pública e votos em comissões manifestando forte oposição à Proposta de Emenda à Constituição que visa extinguir a jornada de trabalho de seis dias por um de descanso.)– “O que aconteceu no 8 de janeiro foi um erro, mas as penas aplicadas são desproporcionais e configuram perseguição política.” (Justificativa apresentada no Senado ao protocolar e defender o projeto da “Lei da Dosimetria”, que buscava reduzir as condenações dos envolvidos nos ataques à Praça dos Três Poderes, em Brasília.)Em 8 de outubro de 2018, sob o título “Uma escolha muito difícil”, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um célebre editorial a respeito do segundo turno da eleição daquele ano, travado por Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro. Recentemente, sob o título “Flávio é um candidato sob suspeita”, o editorial do mesmo jornal concluiu sobre o candidato que poderá ser um dos finalistas das próximas eleições:– “É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas. Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.”Assino embaixo.Acesse todas as colunas do Blog do Noblat no Metrópoles











