Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022 com 50,90% dos votos válidos contra 49,10%. Foram 60,3 milhões contra 58,2 milhões. Uma diferença de apenas 2,14 milhões de votos numa eleição em que mais de 118 milhões escolheram um dos dois candidatos.Formalmente, Lula ganhou. Politicamente, foi Bolsonaro que perdeu. A diferença parece apenas semântica, mas ajuda a explicar 2026.Aquela eleição bateu na trave de um plebiscito. Mas prevaleceu a rejeição. Quatro anos depois, estamos chegando novamente ao mesmo lugar.Pesquisas recentes colocam Lula e Flávio Bolsonaro entre os candidatos de maior rejeição. Datafolha chegou a registrar 46% para cada um. BTG/Nexus encontrou 50% dizendo que não votariam em Flávio de jeito nenhum e 48% dizendo o mesmo de Lula.É quase uma eleição entre dois condomínios murados, com direito a empate técnico entre os rejeitados. Dentro de um dos condomínios moram os lulistas. No outro, os bolsonaristas. Mas a eleição está do lado de fora.Dependendo do instituto, da pergunta e da metodologia, existe algo na ordem de 25% a 30% do eleitorado que não está organicamente incorporado a nenhuma dessas duas fortalezas.A bola está com o eleitor pendular, que não frequenta reunião partidária, não passa o dia brigando nas redes sociais e provavelmente tem preocupações mais prosaicas: supermercado, emprego, imposto, segurança, escola, saúde e prestação vencendo.É justamente esse eleitor que decidirá a eleição.Pelo visto, os estrategistas de Flávio Bolsonaro logo entenderam essa matemática. Há semanas sua campanha começou a trabalhar o eleitorado feminino prioritariamente, numa resposta sólida a um dos segmentos em que o candidato do PL encontrava maior resistência.Mudou a televisão. Mudou a linguagem. Entraram esposa, filhas, família, violência contra a mulher, endividamento e problemas cotidianos. Não se trata necessariamente de converter uma eleitora progressista em bolsonarista.Trata-se de, com simplicidade, sem arroubos de genialidade, trabalhar para diminuir rejeição.A Quaest mostrou recentemente por que a estratégia faz sentido. Entre as mulheres, Lula caiu de 47% para 41% numa simulação de segundo turno, enquanto Flávio avançou de 35% para 38%. No conjunto do eleitorado, os dois apareceram tecnicamente empatados. Uma realidade que materializa a capacidade de influência da rejeição para a intenção de votos e migração eleitoral. Não é coisa de onda. É conta-gotas. Mas pode resultar numa variação que, fora das bolhas, seja capaz de levar a uma vitória.Lula parece ter demorado mais para perceber essa equação da rejeição. Boa parte do voto favorável ao petista já está conquistada. O lulista não precisa ser convencido a votar em Lula.Parece óbvio. Mas falta Duda Mendonça para dizer a real, naquela sua lógica cortante e áspera. Ele, certamente, não tiraria o boné para, esculachando, pontuar que quem precisa ser convencido não é lulista.Na CNT/MDA desta semana, 39,4% avaliaram negativamente a administração, contra 33,8% que fizeram avaliação positiva. Na avaliação pessoal, 49,7% desaprovavam Lula e 45,9% aprovavam.Para um presidente candidato à reeleição, esses números são particularmente importantes porque mostram que a eleição começa a deixar de ser apenas uma disputa entre Lula e Flávio.Lula também disputa contra Lula.Contra o preço que não caiu suficientemente para determinado eleitor. Contra a demanda que o governo não resolveu. Contra a sensação de insegurança. Contra os problemas que envolvem personagens próximos ao poder. Contra qualquer episódio envolvendo seu filho que eventualmente ganhe dimensão eleitoral.Tudo isso pode alimentar exatamente aquilo que Lula menos precisa: rejeição. Talvez por isso sua campanha tenha acordado, ainda que tardiamente, para a segurança pública.Nas últimas semanas, Lula endureceu o discurso e sua propaganda passou a disputar frontalmente o assunto. E curiosamente o governo tinha material para fazer isso antes. Apenas tinha deixado em segundíssimo plano. Já podia ter explorado as operações federais de combate ao crime organizado e medidas nacionais de segurança que, inclusive, antecedem a campanha. Mas esperou a rejeição apertar o calo.Havia faca e queijo. Faltou perceber que segurança havia virado cozinha eleitoral.Mas existe ainda um problema adicional: a crise envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal. Não porque Lula controle o STF. Não controla. Nem porque Alexandre de Moraes seja invenção do PT. Foi indicado por Michel Temer.O problema é muito mais simples e perverso: eleição também é percepção. E a associação política entre governo, esquerda e Supremo, explorada diariamente pela oposição, pode produzir desgaste justamente naquele pedaço do eleitorado que não está comprometido com nenhum dos dois lados.Não é o bolsonarista que interessa nessa história. Esse provavelmente já não votaria em Lula. Também não é o petista. É o sujeito do meio.É ele quem pode olhar para Brasília, enxergar confusão entre Executivo, Judiciário, investigações e interesses políticos e simplesmente concluir essa bagunça toda “já deu”. Aliás, o mesmo “já deu” que provavelmente tenha garantido o segundo dígito em algum momento para Augusto Cury.Por isso, qualquer hipótese de Lula liquidar a eleição no primeiro turno precisa ser examinada hoje com muito mais cautela, visto que está cada dia mais longe.Ele continua liderando levantamentos importantes. A CNT/MDA, por exemplo, registrou 40,6% para Lula contra 30,4% de Flávio no primeiro turno. Mas pesquisas de segundo turno já apresentam uma eleição apertadíssima. Em levantamento recente da Quaest, Flávio apareceu com 42% e Lula com 40%, diferença dentro da margem de erro.O primeiro turno pode escolher os finalistas. Mas não é capaz de antecipar o que vai acontecer no segundo turno. O segundo turno é outra eleição. E, desta vez, haverá apenas 21 dias entre as duas votações, contra 28 dias em 2022.Três semanas. Tempo suficiente para uma denúncia explodir, uma investigação avançar, uma frase infeliz destruir uma semana de propaganda ou um candidato compreender finalmente aquilo que deveria ter entendido seis meses antes.É também quando começará a disputa pelos eleitores dos derrotados. Boa parte dos candidatos situados à direita naturalmente oferece a Flávio um terreno eleitoral mais familiar. Lula, por sua vez, terá de disputar o eleitor que, no primeiro turno, procurou uma alternativa justamente porque não queria nem Lula nem Bolsonaro.E é aí que entra Augusto Cury. Não se trata de esperar seu apoio a Lula. Até porque ele já disse que não apoiará ninguém. Trata-se de compreender por que uma parcela do eleitorado escolheu Cury.Se Lula quiser conquistar esses votos num eventual segundo turno, terá de ouvir o que esse eleitor está dizendo primeiro, mas, sobretudo, o que ele quer ouvir e ver.Isso significa que, desde já, ele precisa aproximar seu discurso de preocupações, valores e críticas presentes na candidatura de Cury, que sejam compatíveis com seu próprio programa. Menos conversa para convertido. Mais diálogo com quem está cansado da polarização. Menos celebração da própria bolha. Mais resposta à inquietação de quem procura moderação, equilíbrio institucional, eficiência administrativa e alguma pacificação da política.Não é Cury que precisa aproximar-se de Lula. É Lula que, eleitoralmente, precisará aproximar-se do eleitor de Cury. Essa talvez seja uma das batalhas decisivas de um segundo turno. Porque a eleição de 2026 pode terminar repetindo 2022 por uma razão quase cruel.Os apaixonados levam seus candidatos até muito longe. Mas, quando dois candidatos carregam bolhas gigantescas e rejeições igualmente gigantescas, quem escolhe o presidente são frequentemente os desconfiados.Flávio Bolsonaro parece ter começado antes a campanha para convencer quem não gosta dele a gostar um pouco menos de não gostar. Lula ainda precisa demonstrar que compreendeu a mesma matemática.Porque esta eleição talvez não seja decidida por quem conquistar mais paixão. Ela será decidida por quem conseguir derrubar rejeição.✅Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp

A força da minoria e a lógica do segundo turno nas eleições presidenciais
A força da minoria e a lógica do segundo turno nas eleições presidenciais · Imagem: Source: noticias.r7.com
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Eleição de 2022 bateu na trave de um plebiscito. Quatro anos depois, estamos chegando novamente ao mesmo lugar Antonio Augusto TSE/Antonio Augusto/Secom/TSE
Eleição de 2022 bateu na trave de um plebiscito. Quatro anos depois, estamos chegando novamente ao mesmo lugar Antonio Augusto TSE/Antonio Augusto/Secom/TSE · Imagem: Eleição de 2022 bateu na trave de um plebiscito. Quatro anos depois, estamos chegando novamente ao mesmo lugar Antonio Augusto TSE/Antonio Augusto/Secom/TSE
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